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Siga as moedas

Não sou um aficionado por numismática, sabe, essa coisa de colecionar moedas e tal. Mas gosto de moedas de todo lugar por causa das características culturais e ideológicas que aparecem nas marcas, imagens e efígies impressas em suas faces. O modo de imprimir e as escolhas temáticas e visuais dizem muito sobre a ideologia dominante de um país ou o que se quer perpetuar a respeito do referido país. Vejam as moedas antigas romanas e gregas, por exemplo. Três temáticas são comuns nesses objetos: guerreiros em cavalos, mandatários e motivos religiosos. Essas temáticas estão vinculadas a origens bélicas, aliás, essa palavra vem do latim bellum, significa arma, e, por sua vez, origina-se do nome de uma importante deusa romana chamada Bellona, a deusa da guerra. Ora, as origens gregas, semelhante às romanas, segundo o helenista Jean-Pierre Vernant, remontam a tribos guerreiras que habitavam as estepes, onde domesticaram cavalos: “O lugar, a importância, o prestígio do cavalo numa sociedade dependem numa larga medida de sua utilização para fins militares” (p.15), assegura Vernant. Isso se reflete nas representações do mundo e de si feitas por essas culturas.

As moedas gregas e romanas manifestam identidades e territorialidades marcadas pelos senhores e pelos deuses que governavam tais territórios. É isso que se vê em suas faces povoadas por mandatários, guerreiros e deuses. Ampliando esse exemplo, moedas do Egito ptolomaico, encontradas recentemente, nos permitiram conhecer a fisionomia da última rainha do Egito, a enigmática Cleópatra. Além do rosto da nobre mandatária, na outra face as moedas trazem cunhadas a águia de Zeus. O Egito realmente tinha dupla face naquela época, parte grega e parte egípcia, como representado nas moedas. Daí se tira que os registros simbólicos das moedas confirmam a conjuntura daquele período em que Egito e Grécia, até certo ponto, criaram uma cultura ambivalente, profundamente marcada por costumes dos dois povos.

Tenho aqui em casa uma moeda árabe de 1 Dirham, que minha filha trouxe dos Emirados Árabes tempos atrás. Em uma das faces da moeda vejo um lindo bule cunhado em alto relevo. Mas que importância tem um bule para estar em uma moeda? Li em um livro de numismática que não se trata de qualquer bule. Trata-se de um símbolo nacional, uma cafeteira chamado dallah, usada para servir café a visitas. Esse símbolo diz da receptividade dos árabes. Eles se veem como um povo hospitaleiro, que recebe os desconhecidos em suas casas com muito respeito e reverência. O dallah encarna esse desejo dos árabes, costume impregnado na cultura oriental. Lembro-me de que quando era moleque, ali pelos 17 anos, li um livro do escritor libanês Jorge E. Adoum em que ele falava dessa qualidade dos povos semíticos, de receber os viajantes e estrangeiros em suas casas com o melhor que tivessem, nem que para isso fosse necessário se privar.

No Brasil, parece que o dinheiro, em suas estampas, exprime ao longo do tempo as ideias de colônia de exploração ou paraíso terreal, resquícios do imaginário europeu quinhentista. As moedas são cunhadas com imagens de exaltação ou exploração de recursos naturais como: matas, animais exóticos, petróleo, além de efígies de mandatários da elite colonizadora. Omitem, o quanto podem, povos originários, mulheres e negros. Temos uma única moeda de 100 Reis, de 1932, com as duas faces totalmente indígenas. É uma homenagem ao cacique Tibiriçá. Essa moeda tem impressa em um lado a imagem do indígena com um cocá e uma borduna na mão e no outro lado, arco, flechas e adereços indígenas.

Contudo Tibiriçá, pelo que consta, foi um guerreiro que se uniu aos jesuítas para combater os próprios indígenas e fundar a Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, atual São Paulo capital. Ou seja, o indígena mereceu homenagem porque era serviçal dos colonizadores. Há também uma cédula de mil cruzeiros, de 1991, com a estampa de um belo casal de indígenas Carajás, mas qual é mesmo a estampa da outra face da cédula? O tal Marechal Rondon, só para nos lembrar de que Carajás é, principalmente, o nome da maior jazida de minério da Vale do Rio Doce, aberta provavelmente em terras outrora dos Carajás. Com imagens de negros há três parcas moedas comemorativas no Brasil, lançadas em 1988, ano da Constituição Cidadã. As referidas moedas de 100 Cruzados têm desenhos grosseiros de rostos negros anônimos, uma mulher, um homem e um menino.

Dificilmente se vai ver moeda exaltando indígena no Brasil ou na Argentina, dois países que preservam no nome a marca da exploração colonial: pau-brasil e argentum, quer dizer, prata. No Peru você ainda encontra uma moeda de 10 Soles com o altivo rosto do líder indígena Tupac Amaru impresso. No Chile, a imagem de um elegante indígena Mapuche, em trajes tradicionais, aparece na moeda de 100 Pesos. Na Bolívia, o Aymará Evo Morales está imortalizado na moeda comemorativa com seu rosto cunhado. Na Venezuela há uma série de moedas que homenageia caciques indígenas, embora nenhuma delas tenha valor de circulação. Esses são os poucos indígenas retratados com alguma dignidade em moedas aqui pela América do Sul. Agora, negros só encontramos com mais frequência mesmo em moedas africanas, com exceção dos EUA onde recentemente apareceram algumas merecidas homenagens nas moedas de um quarto de dolar. Uma dessas moedas traz a face da respeitável poeta e escritora negra Maya Angelou. Isso é incrível porque, exceto a rainha Elizabeth que tem a imagem impressa em quase todas as moedas modernas do Reino Unido, mulheres também não costumam ser homenageadas, quem dirá negras. De certa forma, isso tudo indica que ainda vivemos em um mundo que não gosta de indígenas e mulheres e que, sobretudo, odeia negros.

Moedas carregam um discurso poderoso, bom para se aprender a olhar criticamente para as culturas em que circulam. Pena que essas pequenas obras de arte, cheias de valor histórico, estão sumindo muito rapidamente com a proliferação das movimentações financeiras realizadas por meios on-line.

Referências
ADOUM, Jorge E. Adonai. São Paulo: Editora Pensamento, 1977.
AMATO, Cláudio; NEVES, Irlei S. Livro das moedas do Brasil: de1643 até o presente. São Paulo: Artegraph. Sd.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 2010.

Texto de Alan Oliveira Machado, que é escritor e professor na UEG Iporá

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