
Depois de percorrer o Brasil levando alegria ao público, a família do Circo Pisca-Pisca foi surpreendida pela pandemia em Diorama. O que seria uma breve temporada transformou-se em uma história de solidariedade, superação, gratidão e pertencimento. Esses familiares circenses são: José Junior (pai), Reni (mãe) e os filhos José Neto, Jechonias e Alice. Tem ainda a Índianara ( esposa do José Neto) e Kevin Gabriel ( filho José Neto).
A vida de quem nasce e cresce no circo é marcada pelo movimento. São estradas, cidades, encontros e despedidas. A cada novo destino, a esperança de encontrar um público disposto a se encantar com a magia do picadeiro. Mas, para uma família de artistas circenses que percorreu o Brasil durante muitos anos, uma parada na pequena cidade de Diorama, no Oeste Goiano, mudaria para sempre o rumo de sua história.
O que parecia ser apenas mais uma temporada de apresentações acabou se transformando em uma experiência de vida que ultrapassou os limites da lona do circo. Em Diorama, aquela família encontrou muito mais do que um lugar para permanecer durante a pandemia: encontrou acolhimento, oportunidades e uma comunidade que conquistaria definitivamente seus corações.
Uma história que começou no Rio Grande do Sul
O Circo Pisca-Pisca nasceu em 2006, no Rio Grande do Sul, idealizado pelo casal Reni e José, juntamente com seus três filhos e uma nora.
Antes de realizar o sonho de ter o próprio circo, a família já havia acumulado experiências trabalhando em diferentes companhias circenses pelo Brasil. Foram anos de aprendizado, dedicação e convivência com uma das mais antigas manifestações da cultura popular.
A decisão de criar o Circo Pisca-Pisca representou a conquista de uma independência construída com muito esforço. Era um empreendimento pequeno, simples e essencialmente familiar, concebido para garantir o sustento de seus integrantes sem abrir mão dos princípios e valores que orientavam suas vidas.
Apesar da estrutura modesta, havia uma grande preocupação em oferecer espetáculos de qualidade, preservando as características tradicionais da arte circense.
No picadeiro, o público encontrava atrações variadas: equilíbrio na corda bamba, trapézio, números de mágica, arremesso de facas, engolidor de fogo, malabarismo, palhaços, táxi maluco e apresentações teatrais.
Cada espetáculo era resultado do trabalho coletivo de uma família que fazia da arte sua profissão e de cada apresentação uma oportunidade de proporcionar alegria e encantamento.
Para aqueles artistas, o circo não era apenas um meio de sobrevivência. Era a própria casa, o ambiente de convivência familiar, a expressão de sua identidade e a continuidade de uma tradição cultural transmitida entre gerações.
Uma vida pelas estradas do Brasil
Ao longo da trajetória circense, os integrantes da família conheceram diferentes regiões do Brasil, de norte a sul, além de localidades do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.
Com o Circo Pisca-Pisca, passaram por estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Goiás. Neste último, tiveram a oportunidade de conhecer praticamente todo o território estadual.
A rotina era marcada por viagens, montagem e desmontagem de estruturas, preparação dos espetáculos e constantes mudanças de cidade.
Em cada localidade, novas amizades eram construídas. Depois, chegava o momento da despedida e da partida para outro destino.
Assim transcorreram os anos, com dificuldades próprias da atividade circense, mas também com a satisfação de levar entretenimento e alegria a milhares de pessoas.
Até que, em 2020, uma viagem aparentemente comum levaria o Circo Pisca-Pisca a Diorama, cidade que se tornaria o cenário de uma profunda transformação na vida daquela família.
A chegada a Diorama e a surpresa da pandemia
Quando o Circo Pisca-Pisca chegou a Diorama, em 2020, a expectativa era cumprir mais uma temporada de apresentações e, posteriormente, seguir viagem.
O espetáculo havia sido apresentado apenas três vezes quando a pandemia da Covid-19 começou a provocar a suspensão das atividades públicas em todo o país.
Com os decretos que proibiram eventos e aglomerações, as apresentações circenses foram interrompidas.
De uma hora para outra, a família se viu diante de uma situação jamais enfrentada em tantos anos de estrada.
Sem público, não havia bilheteria. Sem bilheteria, desaparecia a principal fonte de renda. E, com as restrições impostas pela pandemia, também não havia condições de viajar para outra cidade.
A situação era especialmente dramática porque, diferentemente de muitos trabalhadores que puderam permanecer em suas residências durante o isolamento, os integrantes do circo moravam nos próprios trailers que acompanhavam a estrutura circense.
O local de trabalho era também a moradia de toda a família.
A incerteza tomou conta de todos. Como sobreviver? Como alimentar a família? Por quanto tempo permaneceriam impedidos de trabalhar? E o que aconteceria com o circo, construído com tantos anos de esforço?
As respostas pareciam cada vez mais distantes.
A solidariedade de uma cidade inteira
Diante da situação, os integrantes do Circo Pisca-Pisca decidiram procurar a então prefeita de Diorama, Valéria, para explicar as dificuldades que estavam enfrentando.
O pedido era simples: precisavam de um local onde pudessem permanecer com os trailers e a estrutura do circo, contando, se possível, com o fornecimento de água e energia elétrica.
Não queriam causar transtornos à cidade. Desejavam apenas encontrar condições mínimas para atravessar aquele período de incertezas.
A resposta foi imediata e acolhedora.
A administração municipal compreendeu a situação, e a família recebeu o apoio necessário para permanecer na cidade.
Mas a solidariedade não ficou restrita ao poder público.
A notícia sobre as dificuldades enfrentadas pelos artistas se espalhou, sensibilizando os moradores de Diorama. Ainda naquele dia, começaram a chegar doações e manifestações de apoio.
Cada pessoa procurava contribuir de acordo com suas possibilidades. Uns ofereciam alimentos; outros, diferentes formas de ajuda. O importante era não deixar desamparada aquela família que, até poucos dias antes, havia chegado à cidade com o propósito de proporcionar diversão aos moradores.
A população demonstrou que, mesmo em tempos de medo e incerteza, a generosidade podia fazer a diferença.
Segundo o relato da família, durante todo aquele período, apesar das dificuldades, nunca faltou o essencial.
A lembrança desse acolhimento permanece como um dos capítulos mais emocionantes de sua trajetória.
Para os integrantes do Circo Pisca-Pisca, a solidariedade dos moradores de Diorama foi muito mais do que uma ajuda material. Representou a certeza de que não estavam sozinhos.
O trabalho como caminho para a sobrevivência
O tempo passou, e a pandemia continuou impedindo a retomada das apresentações.
O que inicialmente parecia uma interrupção de poucos dias transformou-se em semanas e, posteriormente, em meses.
Acostumados a enfrentar os desafios da vida itinerante, os integrantes da família compreenderam que precisavam encontrar alternativas para garantir o próprio sustento.
Foi então que começaram a produzir peças de artesanato utilizando pneus. Ao mesmo tempo, dois dos rapazes passaram a realizar serviços braçais que surgiam na cidade.
Não importava se o trabalho era diferente daquele que haviam exercido durante toda a vida. O objetivo era sobreviver com dignidade, sem perder a disposição para enfrentar as adversidades.
A experiência demonstrava a capacidade de adaptação de uma família habituada a superar dificuldades, mas que agora enfrentava um desafio completamente diferente: aprender a viver sem o espetáculo que sempre havia sustentado sua existência.
Quando até a lona do circo foi ameaçada
Como se não bastassem as dificuldades provocadas pela pandemia, um novo problema trouxe ainda mais preocupação.
Durante uma revisão da estrutura, a família abriu a lona do circo e descobriu que ratos haviam provocado buracos em diversos pontos do material.
A constatação foi devastadora.
A lona era um dos elementos mais importantes de toda a estrutura. Sem ela, seria praticamente impossível retomar as apresentações quando as restrições sanitárias fossem suspensas.
Além do prejuízo material, havia o impacto emocional.
Aquela cobertura representava muito mais do que um equipamento de trabalho. Era o teto sob o qual a família havia vivido inúmeras experiências, apresentado espetáculos, criado os filhos e construído sua história.
Sem recursos para realizar os reparos necessários, os artistas temeram pelo futuro do Circo Pisca-Pisca.
Foi nesse período, em meio à aproximação das eleições municipais de 2020, que surgiu uma nova perspectiva.
Conforme o relato familiar, aquele que viria a assumir a Prefeitura de Diorama procurou os integrantes do circo e informou que buscaria recursos por meio da Lei Aldir Blanc, criada para apoiar o setor cultural durante a pandemia.
A possibilidade de receber esse apoio trouxe esperança em um momento em que o futuro parecia especialmente incerto.
Mais do que uma perspectiva de auxílio financeiro, o gesto reforçou a percepção de que a família havia encontrado em Diorama pessoas dispostas a contribuir para sua reconstrução.
A decisão que mudou o destino da família
Com o passar do tempo, os vínculos com a comunidade foram se fortalecendo.
O carinho recebido, as amizades construídas e as oportunidades que começaram a surgir levaram os integrantes do Circo Pisca-Pisca a considerar uma possibilidade que, até então, praticamente não fazia parte de seus planos: abandonar a vida itinerante e estabelecer residência definitiva em uma cidade.
E a cidade escolhida foi Diorama.
A decisão representou uma mudança profunda na história da família.
Depois de tantos anos percorrendo estradas, montando e desmontando estruturas e vivendo de uma cidade para outra, chegava o momento de criar raízes.
Inicialmente, os integrantes continuaram morando nos trailers do circo. Aos poucos, porém, com trabalho e perseverança, conseguiram construir a própria casa.
A família também encontrou novas ocupações profissionais.
Um dos filhos passou a trabalhar em uma fazenda. Outro conseguiu emprego em uma loja de materiais de construção. Uma das filhas começou a trabalhar na varrição das ruas da cidade e, posteriormente, foi aprovada em concurso público municipal, passando a atuar na área de endemias.
Cada conquista representava um passo importante na construção de uma nova realidade.
A família que antes dependia das bilheterias e das temporadas circenses passou a encontrar sustento em outras atividades, sem deixar de carregar consigo as lembranças e os valores de sua origem.
De artistas viajantes a moradores de Diorama
Para quem passou praticamente toda a vida nas estradas, morar definitivamente em uma cidade representou uma experiência inteiramente nova.
Pela primeira vez, os integrantes daquela família puderam experimentar a sensação de ter endereço permanente, casa própria, vizinhos fixos e uma rotina que não precisava ser interrompida pela chegada de uma nova temporada.
Era possível fazer planos sem pensar na próxima viagem.
As amizades deixaram de ser encontros passageiros e passaram a integrar o cotidiano. A convivência com os moradores se aprofundou, e os vínculos com a comunidade se tornaram cada vez mais fortes.
Aos poucos, Diorama deixou de ser apenas o lugar onde o circo havia ficado impedido de trabalhar durante a pandemia.
Transformou-se em lar.
A cidade que acolheu uma família em situação de vulnerabilidade passou a fazer parte de sua identidade.
E o sentimento de pertencimento tornou-se tão intenso que, conforme expressa uma das integrantes, o amor por Diorama é semelhante ao de quem nasceu e cresceu ali, como se várias gerações da família já tivessem vivido naquela terra.
Uma história de gratidão que permanece viva
O Circo Pisca-Pisca representa uma parte inseparável da história dessa família.
Suas apresentações, os aplausos recebidos, as viagens, as dificuldades e as alegrias continuam presentes na memória de seus integrantes.
Embora a vida tenha tomado novos rumos e cada um tenha encontrado outras atividades profissionais, a essência circense permanece viva.
Afinal, o circo não se resume à lona, ao picadeiro ou aos espetáculos. Ele também está na maneira de viver, na união familiar, na criatividade, na coragem para enfrentar desafios e na capacidade de recomeçar.
Hoje, ao recordar a trajetória que começou no Rio Grande do Sul, em 2006, e passou por tantas cidades brasileiras, a família reconhece que sua chegada a Diorama, em 2020, foi um acontecimento decisivo.
Uma pandemia que trouxe medo, sofrimento e incertezas acabou colocando aqueles artistas diante de pessoas que lhes ofereceram algo que não esperavam encontrar: a oportunidade de construir uma nova vida.
A gratidão se estende à administração municipal, às pessoas que fizeram doações, aos que ofereceram trabalho e a todos os moradores que, de alguma maneira, contribuíram para que a família pudesse atravessar aquele período tão difícil.
São gestos que não foram esquecidos e que permanecem como demonstrações do valor da solidariedade humana.
Diorama, a cidade que conquistou uma família
A história do Circo Pisca-Pisca é também uma história sobre o poder transformador do acolhimento.
Uma família que durante anos percorreu estradas levando alegria a outras pessoas acabou encontrando, em uma pequena cidade do Oeste Goiano, a generosidade de uma comunidade inteira.
Os artistas que chegaram para divertir o público descobriram, em meio a uma das maiores crises sanitárias da história recente, que a solidariedade também pode transformar destinos.
O circo, que por tantos anos foi a casa da família, deu lugar a uma residência definitiva. As estradas foram substituídas por ruas familiares. As constantes despedidas deram espaço à convivência duradoura.
E a cidade que inicialmente seria apenas mais uma parada no caminho tornou-se o destino escolhido para viver.
Para essa família, Diorama não é simplesmente o município onde a pandemia interrompeu uma temporada circense. É o lugar onde encontrou apoio quando tudo parecia perdido, onde surgiram oportunidades de trabalho, onde construiu sua casa e onde aprendeu um novo significado para a palavra pertencimento.
Uma história que começou com um pequeno circo familiar e ganhou um capítulo inesquecível graças à generosidade de uma população.
A família guarda uma convicção que a acompanhou nos momentos mais difíceis e que continua expressando sua fé e gratidão:
“Deus é bom o tempo todo!”
E, para os integrantes do Circo Pisca-Pisca, Diorama será para sempre a cidade onde a vida lhes reservou uma das mais belas surpresas: a descoberta de um lugar para chamar de lar.





