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A comunidade árabe na formação de Iporá

Mais um trecho do livro “A formação da sociedade iporaense”, de Valdeci Marques. Desta vez, a contribuição da comunidade árabe. Segue texto:

Saleh Ahmad Abdel Halin Hussein representa bem em Iporá a comunidade árabe que deu certo nessa cidade, uma vez ser este um povo muito trabalhador. Saleh, que está estabelecido em Iporá no pavimento superior de um prédio de sua propriedade na Avenida 15 de Novembro, mesmo endereço da loja Novo Mundo, sabe contar bem a história dessa comunidade árabe. Saleh não foi o primeiro a vir. Hassan Hassan Salim Dawd, que nesta terra levou o nome de Natal, foi o primeiro deles, em 1962. Tanto Natal quanto Saleh são palestinos da área da Jordânia. A profissão de mascate foi muito comum entre eles. Isso significava ter uma mala em mãos, dentro dela mercadorias, principalmente roupas, e sair vendendo. Assim o Natal chegou aqui. Observou a cidade, gostou e quis se estabelecer em definitivo, montando uma loja ao lado do local onde hoje é a Casa Palmeiras. Esse estabelecimento depois passou a ser chamar Casa Jordânia. Natal, que tinha chegado solteiro, se casou com uma filha da terra: Valdomira. Vendeu a loja para um outro mascate do oriente médio que passava por aqui, o Saud, o Jorge, da mesma região da Jordânia e também palestino. Era assim. Os palestinos se encontravam e passavam a ter afinidade entre eles, inclusive, fazendo negócios. O conterrâneo Natal passou a ser um comerciante de gado, o que fez por muitos anos na região de Iporá. Do casamento do Natal com a Valdomira nasceu o Nasser Hassan, que foi bancário em Iporá. A loja acabou sendo vendida para o Saleh, o qual conta que houve maldade na negociação, uma vez que foi venda de porta fechada e sem balanço. Só depois viu que tinha muitas caixas vazias, onde supôs que deveria haver pares de calçados. Foi a Goiânia reclamar ao vendedor, o qual diminuiu o valor a ser pago. Saleh conta que aborrecido com o negócio fez até o que um muçulmano não pode fazer: bebeu cachaça. Estava descontente com o conterrâneo. Mas superou dificuldades e seguiu em frente. Essa venda da loja para Saleh ocorreu quando ele chegou, depois de ter vindo para Iporá na mesma condição de mascate. Alegre, de voz forte e de espírito comunicativo, mas com muita dificuldade para falar a língua portuguesa ia batendo de porta em porta. Vendia muito e sabia ganhar dinheiro. Facilitava a comunicação com os clientes deixando o preço por escrito nas mercadorias. Saleh recorda que saiu jovem da Jordânia, um local onde também trabalhou em plantios e mineração de granito e ganhou dinheiro. Mas quis deixar aquela região de conflito com os israelenses, onde o povo até hoje sofre muito. Veio sozinho em um navio de demorada viagem. Do porto de Santos veio para Goiânia, com endereço de um conterrâneo que tinha uma loja na Avenida 24 de Outubro, em Campinas. Então passou a mascatear as mercadorias que seu amigo tinha na loja. E foi ao interior, também em festas religiosas, onde se estabelecia para vender. Vindo na direção oeste, ouviu falar de Iporá. Chegou com suas malas de mascate. Logo descobriu que carregar uma só mala era mais desconfortável, por causa do desequilíbrio. Então passou a visitar as casas com duas malas: uma em cada mão. E vendia muitas mercadorias. De mascate para comerciante de Iporá foi questão de tempo, pois gostou do lugar. Depois de bem estruturado em Iporá fez uma viagem ao Oriente Médio, de onde trouxe aquela que é seu amor da vida inteira: Fatmeh, nome que foi aportuguesado para Fátima. É parente dele. Casou em família. Documentaram a vinda para o Brasil. Ambos possuem dupla nacionalidade. Retomando atividades em Iporá, prosperou ainda mais no comércio. Do Ataliba Cambista comprou o ponto comercial que tem hoje na Avenida 15 de Novembro: 29 metros de frente por 44 metros de fundo. O sucesso no comércio deu a ele condições de comprar uma terra na Fazenda Santa Marta, onde viveu a experiência de plantio e criação de animais. Um irmão dele, o Ali, outro palestino vindo da Jordânia, foi recebido por ele, a quem ajudou abrindo para que trabalhasse loja em Barra do Garças. Saleh interagiu com os demais da comunidade árabe que ia chegando. Conviveu com o libanês Antônio Diab, casado com a Ilena, e que teve na sua mesma avenida a loja Armarinhos Brasil Líbano. Essa família também atuou muito no comércio de Iporá, até optar por Goiânia.O comunicativo Saleh interagiu com Armad, de nome aportuguesado para Armando, que chegou em Iporá por volta de 1970 para atuar no comércio de frutas e verduras. Deixou uma filha de seu casamento em sua terra (Palestina). No Brasil, de um casamento teve os filhos Mahmud Sara, Fatima Sara, Maria Aparecida Sara, Munir e Samira Sara. Sua esposa brasileira morreu. Veio para Iporá e se casou nesta terra com a Geracina, de quem teve o Wellington, sendo que a Geracina de outro relacionamento tivera a Jeane e Geovane, ambas de sobrenome Freitas. Os filhos Mahmud e Wellington são advogados nesta cidade de Iporá. Armando viveu exclusivamente nesta cidade desde o citado ano de 1970 até 1998, quando faleceu, sendo que seus familiares em grande maioria, permanecem morando por aqui, alguns profissionais formados ou em outros ramos profissionais, Armando ou simplesmente “turco”, como era conhecido, dedicou nesses anos uma trajetória de vida impar, um homem de bem, que apesar de poucos recursos financeiros sempre participou ativamente de todos eventos sociais desta comunidade, deixando um grande lastro de amizades e muitos pesares pela sua morte, e seus herdeiros procuram ao máximo darem sequencia a sua história de vida e seus ensinamentos e com isso deixarem acesa a chama do nome de herdaram de seu pai. Ali próximo do comércio de Saleh estabeleceu-se também o Mohamad Aweda, também palestino e que veio para essa terra de paz. Por muitos anos, na esquina da Rua Esmerindo Pereira com a Avenida 15 de Novembro ele e a esposa Teodora fizeram funcionar a Casa da Confiança. Desse casal adveio o Castro, pai do Daniel, atuante como mobilizador do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural na região de Iporá. São também filhos de Mohamad e Teodora a Adram, Dala, Amal, Marra, Durrah, Raifa e a Alia, esposa de Adaílto Leite, conceituado médico e pecuarista nesta terra. A comunidade árabe em Iporá teve presenças rápidas como, por exemplo, do Badiah Mussalam que atuou no comercio, tendo se casado com Luzia, a filha de Inácio Martins de Arruda e de Maria Rosa de Jesus, a Dona Rola e de cuja união nasceu Márcia Mussalan, executiva em empresa. Quanto ao Saleh tem família de soma de vários membros para esta comunidade. De seu casamento com Fátima nasceram Cadri, conceituado profissional do ramo de farmácia e que se casou com Sandra, de cuja união nasceu a Sara. A filha Susana que possui deficiência auditiva mora com os pais e tem grande participação no cuidado deles e das crianças da família. A Rosana se casou com Ahmad, enquanto a Fátima, que é comerciante, se casou com o Júnior, militar que ajuda a cuidar da segurança da cidade de Iporá. São estes os familiares do Saleh, gente pacífica na cidade que acolheu a tantos. Saleh, esse comunicativo senhor que sabe contar muitas histórias dessa terra, recebeu da Câmara Municipal de Iporá o título de Cidadão Iporaense. De fato, muito contribuiu e sempre fez questão de investir na cidade de Iporá que tanto ama e incentiva os filhos também a investir na cidade. Afastou-se do comércio e desfruta ao lado da esposa, da vida que seu esforço lhe proporcionou. Em casa, fala com a esposa na língua árabe. Pratica as rezas da religião muçulmana, possui uma fé inabalável em Deus e um senso de gratidão extremamente forte. Saleh é um homem de muita fé e ensina aos filhos todos os dias que a crença, respeito e adoração a Deus são os únicos caminhos para uma vida plena e o descanso eterno. Ele e ela mostram serem felizes com tudo que aconteceu. Ainda falando de migração, outro trecho deste livro discorre sobre a vinda e atuação em Iporá dos japoneses. (Foto pág. 53)

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