Relembrando religiosas: As “Irmãs holandesas” em Iporá – parte II

11/07/2021
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Irmãs Benigna e Miguela

A nosso convite, o historiador João Paulo Silveira (UEG de Iporá) tem escrito textos históricos para o Oeste Goiano, especialmente sobre religiosos que atuaram nesta terra. Um primeiro texto foi publicado recentemente. ACESSE AQUI. Um terceiro ainda será publicado em breve. O trabalho de pesquisa de João Paulo é feito em parceria com o Padre Rodrigo Antônio Alves Ferreira, CP.


Segue texto do historiador:


Em nosso segundo texto, destacamos um pouco das experiências das irmãs Benigna Auer (1925-1998) e Miguela Hoenselaar. Parte do que nos chegou sobre as religiosas passionistas é fruto de depoimentos e documentos escritos. No geral, problematizamos esse material a fim de encontrarmos nele alguns dados sobre a atuação das religiosas e lançar luz sobre alguns dos valores que orientavam suas iniciativas em nossa cidade. 


Irmã Benigna Auer


Irmã Benigna, nascida na Áustria, em 18 de março de 1925, na região de Burgenland, recebeu no batismo o nome de Ernestina Maria Auer. Ela é a única das religiosas vindas para nossa região, que não é de origem batava. Sabemos pelos registros que Benigna era oriunda de família muito piedosa e por isso logo manifestou o desejo de ser religiosa. Ingressou na congregação das Missionárias de Santa Gema, nos Países Baixos, e professou seus votos em 01 de fevereiro de 1959.


A passionista austríaca chegou ao Brasil em 1967. Ela residiu por três anos em Iporá antes de se mudar para Goiânia, onde viveu por oito anos.  Na capital, cuidava da cozinha em uma comunidade da Vila Fama e exercia sua caridade visitando doentes. Em 1978, a religiosa retornou para Iporá, onde viveu e trabalhou por 20 anos. Segundo a memória daqueles que a conheceram, irmã Benigna costumava dizer que tinha três pátrias: a Áustria, pátria de seu sangue; os Países Baixos, pátria da sua vocação religiosa, e o Brasil, pátria do seu coração e do trabalho missionário. Bem educada, a religiosa falava o alemão, o batavo e o português. Testemunhas afirmam que ela ficava muito feliz quando encontrava alguém com quem pudesse falar em alemão.


Como diretora do Lar São Vicente de Paulo, entre 1978 e 1998, Benigna acolheu muitos idosos. Em razão de saber dirigir, ela era responsável pela condução dos abrigados enfermos ao hospital, mesmo tarde da noite. No início, seu trabalho de acolhimento compreendia idosos e, eventualmente, pessoas com deficiência mental. Em seus primeiros momentos de existência, o espaço de acolhimento, que abrigava doze idosos, chegou a ter quarenta internos sob a direção da incansável religiosa. 


No dia 02 de fevereiro de 1984, a religiosa comemorou seu jubileu de prata ao completar 25 anos de vida consagrada. Dom Stanislau van Melis (1911-1998), o primeiro bispo da Diocese de São luís de Montes Belos, celebrou a data em Iporá ao lado da religiosa e dos amigos no Lar São Vicente de Paulo. Sobre aquele momento, o Boletim Comunitário da Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pelo Padre Wiro van Vliet (1927-2009), relatou: “Muita gente, os amigos do abrigo participaram! Em discursos, poesias, peças de teatro foi elogiada a dedicação da irmã junto aos idosos, sua paciência, seu sorriso em todas as horas, sua maneira toda própria de se entreter com os velhos e doentes e com as ‘crianças’. Muito obrigado aos organizadores da festa e, mais uma vez, Irmã Benigna, parabéns e que por muitos anos possa continuar sua missão junto aos que tantas vezes são carentes de amor e afeto”.


Uma anedota interessante sobre a passionista revela um pouco de sua personalidade e do cotidiano das religiosas:  Benigna sempre se atrasava para o lanche na casa das irmãs, situada na avenida Goiás. Segundo diziam, ela se detinha em conversas ao longo do trajeto e por isso perdia a hora, o que certamente colocava entre parênteses o habitual zelo com o tempo que atribuímos aos religiosos. Previdentes, as outras irmãs assumiam a obrigação da Benigna, que costumava chegar desconcertada pelo atraso ao ponto de gaguejar para se explicar. Ainda bem que o aperto durava só uma semana! Logo era a vez de outra irmã preparar o lanche. 


Benigna criou profundo vínculo com a cidade. Para ela, voltar aos Países Baixos não fazia sentido, pois era austríaca. Tampouco manifestava desejo de voltar para a pátria de Beethoven.  Faleceu no Brasil, em 10 de julho de 1998, acometida por um aneurisma, quando ainda trabalhava no Lar São Vicente de Paulo. Irmã Benigna é a única religiosa Passionista de Santa Gema sepultada no Brasil. 


Diante da morte repentina de Irma Benigna, a comunidade iporaense assim celebrou sua memória no cartão de lembrança, na ocasião da missa de sétimo dia, realizada em 16 de julho daquele ano: “A vida de Ir. Benigna era impulsionada por uma espiritualidade de seguimento de Jesus, marcada pela oração e intensa comunhão com Deus, uma vida de extrema dedicação aos pobres e humildes da sociedade, sobretudo nos 20 anos na direção do Lar São Vicente de Paulo, junto aos idosos. Ela dava tudo de si em amor, carinho e ternura aos abandonados na última fase de sua vida. Ela deu-nos o testemunho da fidelidade, da autenticidade e perseverança na missão da vida cristã. Seja lembrada também sua piedade mariana, nos últimos anos concentrada na ‘Rainha da Paz’ de Medjugorje”.  


Irmã Miguela Hoenselaar


Theodora Gertruda Hoenselaar nasceu em 10 de dezembro de 1929, em Milsbeek, província de Limburgo, nos Países Baixos.  Era filha de Wim e Door Hoenselaar, ambos trabalhadores rurais.  Seu nome religioso é Michaëla, entre nós Miguela, em clara referência ao Arcanjo Miguel. A irmã é uma das poucas religiosas passionistas Missionárias de Santa Gema que ainda vivem. 


Como grande parte dos missionários passionistas que se estabeleceram aqui, Miguela passou pelos horrores da II Guerra Mundial (1939 – 1945). A religiosa, contudo, registrou algumas de suas experiências sobre aquele tempo em material que tivemos contato a partir de uma tradução um tanto precária da língua batava.  A religiosa registrou que sua comunidade natal sofreu com a invasão alemã em setembro de 1944, quando ela tinha apenas 15 anos; os obstáculos criados na região onde viviam não foram suficientes para impedir o avanço e a ocupação do invasor alemão. Os abrigos antiaéreos, criados para proteger as famílias das investidas dos aliados, não eram igualmente seguros. Tais investidas visavam abater os nazistas que ocuparam Milsbeek. O contexto terrível obrigou as famílias da comunidade local em que vivia a jovem Theodora a fugirem para preservarem suas vidas. Sua família abandonou tudo, inclusive os animais. Sua mãe, grávida, só pôde escapar graças a uma carroça da família.  


As famílias da região rumaram para Utrecht, onde foram acolhidas com teto, sopa e pão. Muitos foram separados, perambularam por outras cidades e contaram com a hospitalidade de pessoas que os abrigavam. A família de Theodora, composta por pai, mãe grávida e doze filhos, passou meses nessa situação.  O retorno foi possível pelo avanço dos Aliados no norte europeu. Para ocupar seu tempo e o das crianças naqueles dias, Theodora dava aulas. Ainda adolescente, ela descobriu o interesse pela educação que o acompanhou por toda sua vida. 


Em junho de 1945, os refugiados retornaram para a região de Milsbeek. Reencontraram parentes e amigos e foram informados das perdas de gente próxima por conta do conflito. Encontraram arrasada a região em que viviam, o que provocou imensa comoção em Wim Hoenselaar, pai de da jovem Theodora. Não é difícil imaginar a situação de seus pais, posto que a família era numerosa. Os primeiros meses de recuperação foram penosos e com algum risco de encontrarem minas terrestres. Mas tarde, o governo criou um plano de assistência que permitiu às famílias a reconstrução de suas propriedades. 


 Quando a escola infantil foi construída, Theodora retomou suas atividades como professora de crianças. Em 1953, com vinte e quatro anos, ela deixou a casa dos pais e se juntou às irmãs Passionistas Missionárias de Santa Gema, na cidade de Mook.  Lá, fez sua profissão religiosa em 08 de dezembro de 1955 e preparou-se para a missão através do magistério, sua vocação. 


A religiosa chegou ao Brasil em 1967. Ela trabalhou com a juventude em Firminópolis, onde é lembrada por muitas pessoas por ter organizado passeios a Brasília, a capital inaugurada há poucos anos. Os relatos que escutamos dão conta de uma mulher audaciosa, inovadora e apaixonada pela juventude. 


Em 1977, a irmã chegou a Iporá. Aqui, criou o jardim de infância Branca de Neve com o objetivo de atender os filhos e filhas das classes trabalhadoras de Iporá.   Ensinou muitas mulheres a trabalhar em favor da educação. Alfabetizou gerações de crianças e procurou ensinar a doutrina católica para os pais dos estudantes. Visitava as famílias das crianças da classe trabalhadora e não fazia cerimônia para se juntar à mesa dos mais humildes. Essa disposição certamente imbricava um pouco da experiência difícil que vivenciou nos anos de guerra e se ligava também aos valores católicos que orientavam a identidade da religiosa batava.  


Sua preferência pelos trabalhadores figura em um episódio ocorrido em Arenópolis. Depoentes contam que, certa vez, ao visitar a cidade de Arenópolis, soube de um jovem com deficiência física que aprendera a trabalhar com madeira e a criar peças e brinquedos. O artesão não tinha ferramentas suficientes, o que foi remediado por Irmã Miguela por meio de uma campanha solidária de arrecadação. 


Em agosto de 1987, logo após se aposentar, Miguela decidiu se transferir para Anicuns. Naquela cidade, criou a ADEFA (Associação dos Deficientes Físicos de Anicuns) para atender os deficientes. A religiosa contou com doações vindas da Holanda e com a colaboração de famílias e integrantes do comércio local. Irmã Miguela sonhava com uma associação capaz para promover a dignidade dos deficientes e a superação dos preconceitos que ainda eram muito comuns naquele tempo. 


Irmã Miguela retornou aos Países Baixos no ano 2000. Ela dizia que seu tempo de missão no Brasil havia terminado. Em seu país natal, a religiosa trabalhou na sacristia, mas enfrentou dificuldades em virtude de um acidente de trânsito.  Em 2014, a irmã se transferiu para uma casa de repouso e cuidados especiais em Boxmeer. Em dezembro passado, a religiosa nonagenária celebrou 65 anos de vida religiosa.


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