
Eurádia Pontes Carvalho foi uma existência humana com particularidades raras e que da Bahia veio parar em Iporá, onde morreu na década de 70, mas depois de semear uma descendência que está entre nós a compor a sociedade iporaense. No interior da Bahia, ela viveu um casamento que não lhe agradava por causa do perfil de seu companheiro e então, como era próprio do nordestino decidiu que tinha que ir embora e, além dela, levar consigo quatro irmãs menores de idade, já que a mãe tinha falecido. E quis levar também o único filho que tivera no casamento: o Benedito Pontes, que muito depois iria se tornar barbeiro em Iporá, também conhecido como Dito Barbeiro. Dessa saída da Bahia até chegar em Iporá, a baiana ia percorrer muita estrada. E saíram sem dinheiro. Como tinha em Barretos (SP) um irmão e que lhe acenou que viesse, foi nessa direção. Mas viagem sem dinheiro é aquela em que tinha que ir parando em cidades para lavar roupa como prestação de serviço, ganhar dinheiro e seguir seu rumo com as meninas, suas irmãs. Chegou em Barretos e lá fazia serviços gerais para ganhar a vida. Suas irmãs todas casaram em Barretos com pessoas de boa procedência. E a baiana Eurádia, mulher da pele escura, mas ainda jovem e encantadora foi assediada por Manoel Pereira Sobrinho, um comprador de diamantes. Ele a cortejou e quis casar com ela. Eurádia recusou. Afinal, quando deixou na Bahia o ex-marido acreditou que cuidaria de sua vida sozinha. Eurádia recusou o relacionamento também porque o Manoel era casado e, além disso, um pouco boêmio. Mas enquanto trabalhava em diversos serviços em Barretos, a baiana era assediada pelo comprador de diamantes. Não aceitava sua proposta de casamento, mesmo quando ele avisava que ia deixar sua primeira esposa. Mas do Manoel a baiana Eurádia sofreu a influência de conversas dele sobre garimpo. Ela interessou sobre garimpagem e passou a sonhar com fortuna e vida melhor. Ao ouvir dizer de garimpos em Minas Gerais para lá se dirigiu. E tinha premonição e boa sorte. Fazia o serviço duro do garimpo, mas também era daquelas de bancar a meia praça, que é quando alguém banca a despesa de um garimpeiro para que se ele achar diamante, que divida o valor da pedra. O garimpo ia ser para essa baiana a profissão que lhe daria mais renda na vida. Depois de garimpar em Minas Gerais, ouviu falar do garimpo de Baliza, em Goiás, nas margens do Rio Araguaia. Então veio. E quando veio, mais uma vez o Manoel Pereira Sobrinho a seguiu. Eurádia não o queria como marido. Mas ele insistia, acompanhando-a por onde ela ia, comprando diamantes e insistindo para que a baiana fosse sua esposa. Na época, já estava separado de vez da primeira mulher. Depois de muita insistência, ela impôs condições para o aceitar como marido. Pediu que ele parasse com aquele jeito um pouco boêmio e que fosse em Barretos trazer seu filho Benedito que lá ficara e que, se assim fizesse, numa noite de São João, ao redor de uma fogueira, casaria com ele. Manoel fez tudo que sua musa exigiu. E eles se casaram na noite de São João do ano de 1948. Na mesma região, o filho Benedito também se casou com Antônia Pinto Botelho, natural de Torixoréu, cidade na outra margem do Rio Araguaia. Antônia era uma neta de índio. O filho Benedito era músico e também exercia várias tarefas profissionais. A garimpagem dava lucros e estiveram por tempos bem na Baliza, quando decidiram mudar. Vieram para Iporá, cidade para onde vinha intensa migração. Essa vinda para Iporá ainda não seria definitiva, pois Eurádia que era quem realmente tinha o poder de decisão na casa, ordenou ao marido que fosse em Campo Limpo (atual Amorinópolis) ver as possibilidades de vida naquele local. E decidiram ir para lá, onde estiveram até por volta de 1965. Em Amorinópolis se estabeleceram com o segundo comércio de secos e molhados de um lugar em meio ao cerrado onde tinha poucas casas na década de 50. A atual praça central da cidade era um local onde os donos de sítios colocavam as cocheiras para o gado vir comer sal. E não vinham só bovinos. Veados habitantes do cerrado vinham também lamber o sal na cocheira. Enquanto o comércio prosperava, o filho Benedito aprendeu a profissão de barbeiro, se estabelecendo no povoado, para servir aos poucos dali e aos donos de chácaras nas redondezas. Eurádia voltou a ter seus sonhos com diamantes e fortunas. E bancou meia praça no córrego Santa Marta numa época em que ainda tinha pedras preciosas neste manancial. Guiada pelos sonhos premonitórios, a baiana viveu dois episódios. Certo dia quando foi participar de uma reza notou a imagem enorme de Nossa Senhora da Guia que o dono da casa tinha e ficou triste de saber que o Campo Limpo não tinha uma igreja onde se pudesse guardar essa santa. Fez uma promessa aos céus de que se obtivesse uma fortuna iria construir uma igreja no Campo Limpo. Então teve um sonho, quando viu os números do porco da Loteria Federal. Era uma imagem nítida. Teve certeza que ia ganhar. Pediu ao filho Benedito que achasse aquele bilhete e comprasse. Benedito achou, mas comprou só meio bilhete, por imaginar que a mãe estaria desperdiçando dinheiro com loteria. E o bilhete foi premiado. Um outro de Amorinópolis comprou a outra metade, com o qual lhe deu prêmio suficiente para comprar uma fazenda. E Eurádia passou a edificar a igreja que Amorinópolis iria ter. Cumpriu sua promessa e sobrou dinheiro para um sítio. Em procissão com o padre vindo de Iporá a igreja foi inaugurada. O mais difícil foi convencer o dono da grande imagem de Nossa Senhora da Guia a cedê-la para a Igreja. Mas cedeu e essa festa à padroeira da cidade perdura até hoje. Em outro sonho premonitório soube do lugar exato no córrego Santa Marta onde tinha duas pedras de diamante. Então, quando um garimpeiro aventureiro apareceu à ela dizendo que queria ser bancado em meia praça, Eurádia topou. Aceitou a meia praça com o desconhecido pois ao cumprimentá-lo percebeu os calos de sua mão. Era trabalhador. Garimpeiro de verdade. O homem foi ao garimpo e pegou um diamante. Compareceu perante a baiana sócia. Faturaram alto. Ela disse a ele: – volte lá porque são dois diamantes. O desconhecido pediu um tempo para rever a família e prometeu que voltaria. Tempos depois Eurádia teve notícias do garimpeiro esbanjando dinheiro em Barra do Garças. Na verdade, ele já tinha faturado as duas pedras preciosas do local do sonho, mas só apresentou à baiana uma delas. Mas ela foi feliz em garimpos, apesar de prejuízos deste tipo. Para estudar os netos, todos resolveram vir para Iporá. Eurádia deu condições a todos de iniciar uma nova vida em Iporá. Morreu anos depois. Foi a chefe de família. O seu marido Manoel, que tinha jurado à ela que não passaria mais as noites em bares bebendo, de fato melhorou seu comportamento, a fim de merecer o seu amor. Mas nunca foi aquele homem realmente trabalhador. Gostava de pescar, caçar e se divertir. Em Iporá, o filho Benedito se tonou um reconhecido barbeiro, de salão nas proximidades do Bar Marabá. Mas aquele barbeiro de pele escura era também um músico que sabia tocar quase todos os instrumentos de corda. E aprendia de ouvir tocar. Fez parte da Banda JB7, que animava noitadas no Arcai (Associação Recreativa Cultural e Assistencial de Iporá), no final da década de 60 e início da década de 70. Quase todos descendentes estão em meio a nós. Do casamento do Benedito (Dito Barbeiro) com a Antônia Pinto Botelho (neta de índio) nasceram os seguintes. Teve o Miguel Pontes, respeitado profissional de laboratório em Iporá e que se casou com a Dilza, tendo os filhos Danilo, que tal como o avô o seguiu no canto (premiado em festival) e como profissional de barbearia e ainda o filho Luciano, que se formou em Farmácia, seguiu a profissão do pai em laboratório e que chegou a ser Coordenador Regional de Saúde, numa área de 16 municípios. Dito Barbeiro e Antônia tiveram a Alba (solteira) e a Eurádia (mesmo nome da avó) e que se casou com o Paulo Almeida e tiveram o Ricardo e o Rodrigo. Teve a Luzia, que se casou com Donizete Almeida e que deu a Eurádia os bisnetos Adriano e Leandro. O filho Donizete Pontes, que se destacou como locutor de rádio, deu à baiana os bisnetos André Fabrício e Nayna Suzy, filhos dele com a professora Helena Joana Vieira. Guilherme e Ana Luíza são bisnetas de Eurádia advindas da Aparecida Pontes, a filha caçula do Dito Barbeiro com a Antônia, neta de índio. Da pele escura vinda da Bahia e do sangue indígena das margens do Rio Araguaia se fez um núcleo familiar importante para a sociedade iporaense. (Foto pág. 71)