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Mandato não pode ser apenas distribuição de emendas

A política brasileira atravessa um momento em que o barulho parece ter se tornado mais importante do que o resultado. É muita briga, muita narrativa, muita disputa nas redes sociais e, no fim das contas, pouca discussão sobre aquilo que realmente deveria importar: o que está sendo entregue à população?

É preciso fazer uma pergunta simples, mas que parece ter sido esquecida: para que serve um deputado?

Um deputado não é eleito apenas para distribuir emendas. A emenda parlamentar é um instrumento importante, sem dúvida. Com ela, o município prospera com a vinda/compra de equipamentos, realização de obra ou melhorar um serviço público. Mas ela não pode ser o começo, o meio e o fim de um mandato.

Quando um deputado transforma seu mandato em uma espécie de balcão de pequenas entregas, o cidadão acaba recebendo migalhas enquanto problemas estruturais continuam esperando por solução.

Um mandato de verdade precisa ir muito além disso.

Deputado precisa apresentar projetos que façam diferença. Precisa transformar boas ideias em leis. Precisa fiscalizar o Executivo. Precisa conhecer a realidade dos municípios, ouvir quem está na ponta e construir políticas públicas que possam beneficiar milhares de pessoas, e não apenas atender uma demanda pontual.

É essa diferença que separa o político que simplesmente ocupa um cargo daquele que exerce um mandato.

O cidadão de Iporá, por exemplo, não pode ser lembrado apenas quando chega a época de eleição. O mesmo vale para tantos outros municípios do interior de Goiás. Essas cidades não precisam de políticos que aparecem de tempos em tempos para anunciar uma emenda e depois desaparecem. Precisam de representantes que conheçam suas necessidades, tenham projetos e tenham capacidade de levar essas demandas para dentro das estruturas onde as decisões são tomadas.

E aqui existe outro problema: a política dos chamados “forasteiros”.

Não se trata de dizer que alguém não possa representar uma cidade ou uma região. A democracia permite isso. O problema é quando alguém chega a um município apenas porque identificou ali uma oportunidade eleitoral, sem história, sem projeto, sem vínculo e sem compromisso que ultrapasse o calendário das eleições.

A população precisa começar a cobrar mais.

Não basta perguntar quanto foi destinado em emendas. É preciso perguntar: o que esse mandato criou? O que virou lei? Que política pública foi construída? Que problema foi resolvido de forma permanente? Que benefício alcançou milhares de pessoas?

Essa é a régua que deveríamos usar.

Porque dinheiro de emenda, muitas vezes, resolve uma necessidade imediata. Mas uma boa lei pode mudar uma realidade por décadas. Um programa bem estruturado pode alcançar milhares de famílias. Uma articulação política inteligente pode trazer investimentos, empregos, formação profissional, infraestrutura e novas oportunidades para uma região inteira.

A política precisa sair da lógica da briga pela briga. Precisa abandonar a ideia de que exposição é sinônimo de trabalho. Mandato não pode ser medido pelo número de vídeos publicados, pela quantidade de discussões nas redes sociais ou pelo volume de emendas anunciadas.

Mandato precisa ser medido por resultados.

Goiás precisa de políticos que pensem grande, inclusive para os municípios menores. Políticos que não enxerguem o interior apenas como um território eleitoral, mas como parte fundamental do desenvolvimento do estado.

Iporá e tantas outras cidades merecem mais do que a política das visitas ocasionais e das entregas pontuais. Merecem representantes capazes de construir soluções, defender projetos e deixar um legado que continue beneficiando a população mesmo depois que o mandato terminar.

No fim, a pergunta é muito simples: quando esse mandato acabar, o que vai ter ficado?

Se a resposta for apenas uma lista de emendas, talvez seja hora de repensarmos o que estamos cobrando e, principalmente, o que estamos elegendo.

A política precisa voltar a ser instrumento de transformação. E isso exige menos briga e muito mais entrega de verdade.

Idilaine Moreira é enfermeira e atuante na política de Iporá

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