
Quando o governador Íris Rezende Machado construiu o Centro de Convenções de Goiânia, nas confluências das avenidas Tocantins, Paranaíba e Rua 4, na área em que outrora existia a Santa Casa de Misericórdia, manteve e preservou a Igreja Católica Nossa Senhora das Graças, provedora das realizações cristãs para os seguidores do catolicismo.
Quando o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, estava presente na caravela o padre José de Anchieta, da ordem Companhia de Jesus, também conhecida como Ordem dos Jesuítas, que tinha a finalidade de evangelizar os habitantes encontrados no Novo Mundo.
Existia o arraial de Piques; neste, a paróquia Senhor do Bonfim, posteriormente passou a se chamar Nossa Senhora do Rosário, com a decadência do distrito do Rio Claro (Comércio Velho).
O coronel Joaquim Paes de Toledo, no ano de 1936, almejava construir uma cidade em suas terras, no local denominado Fazenda Tamanduá. Neste local, no ano de 1938, foi construída uma capela com o fim de instalar a paróquia, que passou a se chamar Nossa Senhora do Rosário. A capela, além de atender os fiéis católicos, era também fundamental para o povoamento do local.
Os padres de Araguaiana, da ordem salesiana, ao saberem da existência de um povoado e, neste, já construída uma capela, dispuseram-se a visitar o local com o fim de assistir religiosamente as pessoas da região. O percurso que deveriam enfrentar era de aproximadamente cento e oitenta quilômetros. A viagem não era de um grupo de padres, mas somente de um. Iniciava a viagem atravessando o rio Araguaia para chegar ao Registro, onde arreava o seu cavalo para seguir a viagem, enfrentando matas, cerrados, travessia do rio das Almas e onças que existiam na época. Não existiam estradas, e sim informações dos poucos fazendeiros existentes na região. Não tenho conhecimento de um guia em sua companhia. A viagem durava de dois a três dias. É louvável a atitude do padre que dispôs enfrentar as dificuldades do percurso. Essas viagens aconteceram no período do ano de 1938 e, no final do ano de 1940, muitas pessoas foram evangelizadas.
Com o passar dos anos, a população do povoado aumentou e a capela, com as constantes reformas na estrutura, se tornou igreja. Nos anos de 1950, o frei Henrique foi ao Comércio Velho buscar a imagem de Nossa Senhora do Rosário e colocou no altar da igreja de Iporá.
A igreja foi um esteio para a população católica da cidade. Estiveram presentes inúmeros sacerdotes, com dedicação e apreço, cumpriram o objetivo evangelizando dentro da palavra de Deus. Todos os dias eram oficializadas missas, como também batismo, crisma, primeira comunhão e aula de catecismo. Geralmente, aos sábados, havia casamentos religiosos. O cartório do registro civil funcionava na residência do escrivão senhor João Guilherme da Silva, que ficava na Avenida 24 de Outubro, em frente à igreja. A maioria dos casamentos era realizada aos sábados, principalmente das pessoas que residiam nas fazendas; este era realizado pelo tabelião e o juiz de paz, que existiu até quando o juiz de direito assumiu o seu cargo. Terminada a cerimônia civil, o casal, familiares e convidados atravessavam a avenida e seguiam em direção à igreja; o padre os esperava e realizava o casamento religioso. Na cidade, poucos casamentos eram oficializados no cartório, e sim na residência dos pais da noiva, posteriormente na igreja para realizar o casamento.
Em frente à igreja havia uma cruz de madeira de aproximadamente cinco metros de altura. Em meados do mês de agosto, não havia sinal de chuvas; portanto, algumas senhoras colocavam água em garrafas e se dirigiam até a cruz, ajoelhavam e rezavam, despejando água em sua base, clamando por chuvas. A fé em Deus era enorme; em poucos dias, as chuvas caíam torrencialmente sobre a cidade, a ponto de o córrego Tamanduá não suportar a vazão em seu leito, dado o volume d’água, e transbordava.
A semana que antecedia o dia 24 de maio chegou, data em que se comemora o dia da padroeira da cidade e do município. No lado direito da igreja eram construídas várias barracas com paredes e cobertura com folhas de coqueiros; nestas funcionava o comércio de alimentos e bebidas, tiro ao alvo em carteiras de cigarros com espingarda de pressão, jogos de azar, principalmente na mesa de burro, e outras diversões. Havia leilão de várias prendas oferecidas pelos habitantes da cidade; era muito concorrido. O leiloeiro era astuto e competente, sabia jogar; com isso arrecadava um bom dinheiro para a igreja.
No fundo da igreja, margeando a Avenida XV de Novembro, era instalado o circo de touradas, onde os toureiros davam o show; pessoas corajosas da cidade montavam em touros bravos. O Pacheco encarregava-se da parte cômica, bem como arregimentava adolescentes para acompanhar pelas ruas da cidade com o fim de propagar o circo. Durante o circuito pela cidade, cantava vários tentos entrelaçados.
Destaco um: à frente dos acompanhantes, em alta voz, entoava: “Hoje tem goiabada”; os adolescentes respondiam: “Tem sim, senhor”; “Hoje tem marmelada”; respondiam: “Tem sim, senhor”; “E o Pacheco, o que é?”; respondiam: “É ladrão de mulher, o sol suspende a lua…”. Nos acompanhantes era gravada uma pequena cruz na testa com tinta preta, com o fim de serem identificados na porta do circo para entrarem de graça.
Existia na igreja uma amplificadora que entrava em ação durante a semana comemorativa; às seis horas da manhã, o padre acordava a população colocando discos como: guarânias cantadas por Cascatinha e Inhana, Duo Guarujá, Tonico e Tinoco e outros cantores. Os discos mais tocados eram: Índia, Meu Primeiro Amor e Chalana.
O domingo chegou, estava encerrando a festa comemorativa à padroeira. A procissão acontecia no período noturno do encerramento; a imagem de Nossa Senhora do Rosário era colocada no andor, que seguia à frente da fila, de aproximadamente duzentos metros, todos com velas acesas na mão direita, cantando e rezando, compenetrados pela seriedade do evento. A procissão iniciava na Avenida XV de Novembro, descia a Rua Catalão e virava à esquerda na Avenida 24 de Outubro, em direção à igreja.
Fiz um pequeno histórico sobre a igreja católica, que foi muito importante para Iporá, cumpriu todos os seus objetivos. Estava instalada em uma praça no centro da cidade; portanto, demoliram mais um templo, o que não é novidade, principalmente por se tratar de um templo religioso. Nela, durante anos, aconteceram importantes realizações em benefício da coletividade, mas não existe mais, restando somente saudades e lembranças dos momentos felizes que proporcionou a partir de sua fundação.
Os pioneiros que participaram da história da igreja estão na glória com Deus, mas a descendência gostaria de conhecer com detalhes os acontecimentos e a história de um bem precioso que não existe mais.
A rodoviária também é importante, mas deveria ter sido construída em outro local. Iporá é dotada dessa área; portanto, evitaria sacrificar uma praça e a igreja, que era patrimônio histórico dos habitantes do município.
Goiânia, 8 de julho de 2021
Texto de David Álvaro Medeiros dos Santos, sobrinho de Israel Amorim e contador residente em Goiânia.
