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Autismo como moda

Parece que o autismo está na moda faz algum tempo. É chato chegar a essa conclusão, pois certas coisas definitivamente não cabem no enquadramento da moda. O fato é que ultimamente há certo charme em manifestar, em alto e bom som: – eu sou autista! Cada vez mais vemos pessoas nas redes sociais e nos espaços públicos externando algo como que um sentimento de pertencimento e de identidade com respeito a esse fenômeno. Alguns que buscam cura acreditam ser uma doença e outros simplesmente o encaram como um modo de ser gente na vida, um jeito atípico de reagir ao mundo, uma neurodivergência, uma luta contra a norma. Daí já dá para imaginar o mar de controvérsias em que esse assunto está metido.

Outro dia ouvi um psiquiatra um tanto sensato falar sobre essa moda. Provocava ele: -engraçado, ninguém quer dizer que é esquizofrênico! Boa observação a do médico, mas, sei lá, não deve pegar bem, não deve render likes, embora a esquizofrenia, a rainha das incompreensões psiquiátricas, esteja ali na vizinhança do que a psiquiatria chama de autismo. Aliás, o termo autismo foi empregado pela primeira vez em 1911 por Eugen Bleuler, médico psiquiatra, como um traço característico da esquizofrenia, aquele identificado como certo alheamento da realidade. Antes de provocar mais confusão, ressalto que esquizofrenia e autismo são coisas diferentes.

Sinceramente, não sei mesmo se é o autismo que está na moda. Se fosse seria interessante. Há muita gente sofrendo por não conseguir se equilibrar na linha reta da norma e por compreendê-la como uma camisa de força obrigatória. Muita injustiça se faz em nome de regras que não se sustentam perante o mínimo escrutínio científico. O autismo pode não ser moda, mas é indiscutível que há um abundante comércio psiquiátrico do autismo no meio médico e no das psicologias e que nas redes sociais viceja o comércio narcísico desse fenômeno mental e social. De um lado o excesso de diagnósticos e laudos, do outro a superexposição estereotipada de características atribuídas ao autismo, como se houvesse uma lojinha virtual onde você entra e escolhe as roupas-sintomas para montar o seu look autista. E sempre tenho a impressão de que, como moda, o autismo é uma coisa só, cristalina, simples e sem mistérios.

Muita gente mergulhada nessa moda fala que está cansada de masking, ou seja, de maquiar sintomas para parecer normal. Interessante observar que muitos, tomados pelo modismo, passam a fazer uma espécie de masking reverso, quer dizer, passam a forçar características ditas autistas para se garantirem como autistas. Assim, não entender uma piada ou uma ironia é rigidez cognitiva; não prestar atenção a um aceno de alguém é desconexão com a realidade… Sensibilidade auditiva, foco fechado, práticas ritualísticas e mais, e mais, e mais… Esquecem que todas as pessoas passam por tudo isso uma vez ou outra na vida ou muitas vezes, a depender das circunstâncias. No ano passado tive que dizer a um desses adeptos da moda que o fato de um urubu ter penas, ser bípede, pôr ovos e voar não quer dizer que ele seja um pombo. Tudo isso para afastar de mim certa irritação que a moda causa quando banaliza demais os sintomas e características de uma coisa que não parece tão festiva e legal na vida daqueles que de fato estão no transtorno. Nem sei mesmo se posso dizer transtorno, espectro, neurodivergência ou coisas que o valham.

Parte de minha inquietação com essa moda se deve ao excesso de certezas com algo tão difícil de descrever. A etiologia e a ontologia do autismo não têm paz, quem dirá a nosologia. O autismo não é algo bem descrito pela ciência médica. A ideia de espectro aparece exatamente pela dificuldade classificatória. Desde que Leo Kanner, nos anos de 1940, descreveu Donald Triplett como autista, o terreno é atravessado por controvérsias e disputas nem sempre honestas sobre a classificação, o tratamento e a educação das pessoas diagnosticadas. De Kanner a Asperger e Bettelheim, de Lorna Wing a Temple Grandin muito se divergiu, muito se fez pelo bem e pelo mal das pessoas descritas como autistas. Do lado de cá, tenho a impressão de que se já não é muito simples classificar as dificuldades cognitivas, sociais e o grau de sofrimento de um autista nível três, mais complexo ainda é fazê-lo no suporte um do espectro. Por isso, a inflação de autismo que presenciamos de uns tempos para cá me assusta, principalmente pela facilidade com que nomeiam e descrevem o fenômeno, criando uma massa de gente praticando masking reverso para esconder algum tipo de sofrimento que está para além de qualquer transtorno. De tudo isso, as questões incômodas que me ocorrem neste momento são estas: de que padecem aqueles que, do nada, vestem um uniforme de autistas? Quem está ganhando com isso tudo?

Referências
DONVAN, John; ZUCKER, Caren. Outra sintonia: a história do autismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MALEVAL, Jean-Claude. O autista e sua voz. São Paulo: Blucher, 2020.

  • É linguista, psicanalista e professor da UEG-Iporá, onde coordena o Laboratório de Escuta Psicanalítica.

Texto de Alan Oliveira Machado, que é escritor e professor na UEG Iporá

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