Alan Machado
De tempos em tempos o jornalismo e os meios que vivem da língua, de modo geral, são acometidos por crises de empobrecimento linguístico. Por empobrecimento linguístico, entenda-se o excesso de repetições de expressões da língua que sobrepõe e silencia a riqueza do repertório e do acervo disponíveis aos falantes. A dinâmica do uso permite modulações infinitas do registro linguístico, coisa que os modismos tratam de sufocar com o apego às repetições. Até outro dia havia uma febre de gente trocando a expressão “através” por “por meio de” como se houvesse uma superioridade linguística em usar “por meio de” no lugar de “através”. Os textos então traziam uma enxurrada de “por meio de”, como se o excesso fosse uma virtude. E para a exclusão do “através” vinha sempre a mesma justificativa: “através vem de atravessar”!
Fico pensando aqui comigo: para quem vive da língua, não deveria ser difícil compreender que um significante não está necessariamente vinculado a um único significado. Os que recorrem à etimologia da palavra para resolver a questão procuram chegar a essa origem para justificar o uso monossêmico, entretanto a origem da palavra não é a verdade sobre ela. A verdade sobre uma palavra sai das relações que ela estabelece com as outras palavras, em um contexto que envolve sujeitos e dentro de um certo recorte sincrônico dos usos da língua.
No atual momento passamos pelas febres do “por conta de” e do verbo “acabar’ como auxiliar do gerúndio. Não há entrevista, reportagem ou texto que não venham carregados dessas uniformidades linguísticas. É simples, nos referidos meios, quase ninguém mais usa: “por causa de, em razão de, devido a”… Tudo agora é “por conta de”. Em “Não haverá concurso por causa das eleições” escrevem ou dizem: “Não haverá concurso por conta das eleições”. Em “Não teremos aulas devido ao feriado” preferem “Não teremos aulas por conta do feriado”. “Interditaram a ponte em razão das chuvas. Interditaram a ponte por conta das chuvas”. Assim, muitas expressões que garantiriam construções variadas são silenciadas devido ao monótono avanço do “por conta de”.
O outro modismo que ajuda a tornar o ambiente permeável, acidentado, imprevisível e rico dos usos linguísticos uma grande planície é o verbo “acabar” como auxiliar do gerúndio. Muita gente deixou o uso direto do verbo para pôr no lugar o verbo “acabar” seguido de gerúndio. Já não dizem ou escrevem: “João fez o almoço sozinho, mas João acabou fazendo o almoço sozinho”. Transformam “A guerra do Oriente médio gerou inflação no mundo” em “A guerra do Oriente médio acabou gerando inflação no mundo”. E por aí seguem com um infinito de repetições: acabou morrendo, acabou fugindo, acabou caindo, acabou perdendo, acabou atrapalhando, acabou achando…
A propósito, estou criticando apenas o uso excessivo de tais expressões. Só isso. Informo, como faria qualquer linguista, que não são erros. São realizações da língua. São usos pertinentes do português brasileiro. Como costumo dizer, combato o empobrecimento da língua produzido pelas repetições desnecessárias. E faço isso desde sempre. Lembro-me, por exemplo, que tempos atrás criticava professores de cursinho que mandavam a caneta vermelha no uso da conjunção “mas”, não pelo excesso de repetições, mas condenando-o como marca de oralidade, como se antes de tudo a língua não fosse falada, como se a língua saísse de outro lugar que não fosse a boca do povo.
Por motivo bem mais subserviente já vi alguns professores recriminarem o uso do gerúndio, como se fosse um defeito do português cultivado nestas terras tupiniquins. E quando questionados onde estaria o defeito simplesmente respondiam algo assim: “ah, não gosto, acho feio, tenho pavor de gerundismo”. A mim, a repulsa ao gerúndio cheira a complexo de vira-lata. Tanta rejeição seria porque o português lusitano prefere um verbo de ligação seguido de um verbo no infinitivo (estou a fazer, estou a procurar... ) no lugar do gerúndio? Não entendem que o gerúndio é uma preferência do português brasileiro, que nada deve ao verbo+infinitivo dos falantes do português europeu? Parece que pela lógica emocional dos críticos do “gerundismo” não há problema em existir o “infinitivismo” lusitano. Assim, fica difícil negar que por trás desse comportamento vive um imaginário de pureza linguística e de superioridade dos usos europeus da língua que de fato nunca existiu. Reduzir o idioma a isso é negar o acesso a sua dinâmica, sua pluralidade e sua multiplicidade.
O que se deveria cobrar no exercício da oralidade e da escrita é o uso variado do acervo, do opulento repertório da língua. Quando se opta por esse caminho há tantas possibilidades que não restará espaço para o repertório limitado que recorre sempre as mesmas expressões, a mesma sintaxe. Destacar nos textos o excesso do mais do mesmo linguístico sem apelar para purismos e chiliques cheios de ranço colonial é importante, contudo é mais importante ainda promover a formação de leitores e o exercício diário da leitura, pois é por esse trilho que se alcança o tesouro da língua, seu extenso universo. (junho 2026)

Alan Machado é linguista, psicanalista e professor da UEG-Iporá, onde coordena o Laboratório de Escuta Psicanalítica.
